A Jornada
Tomei consciência de que estava acordado quando senti meu cérebro funcionar, uma pequena latência tomava conta de meu corpo por inteiro, outro sinal de que estava acordado; contudo, não conseguia enxergar absolutamente nada, não sentia nenhuma espécie de odor que desse pista de meu paradeiro; se sentisse o cheiro forte de fumaça preta, tipica dos escapamentos de carros, poderia afirmar que ainda estava deitado no meio da faixa de pedestres. Alem da latência generalizada, não era possível sentir mais nada, nem calor ou frio, dor ou relaxamento, muito embora era minha cabeça que latejava mais, uma espécie de formigamento abrandado talvez pela calma em que meu corpo se encontrava. Estranhamente, não me sentia eufórico ou preocupado em saber que não podia abrir meus olhos, algo não os deixava abrir, como se alguem o segurasse com dois dedos, em forma de pinça ou grampos impedissem sua abertura. Não sentia medo, era uma incrível sensação de imparcialidade, de calma e leveza. Para completar a total experiencia de vaguidão e longinqüidade, não era capaz de escutar nem os mais altos berros, berros este que jurara ter escutado momentos atrás.
Momentos se passaram; não sei ao certo quanto tempo levou, um segundo, uma hora ou até mesmo um dia inteiro, afinal, é difícil estabelecer uma relação de tempo quando nos encontramos inertes no espaço, sem nenhum de nossos sentidos para nos alertar do periodismo. A falta de tato inibe sentir qualquer calor que por ventura o sol exale ou ate mesmo o vento noturno. A abstinência da visão é tão obvia que não merece comentários mais profundos, por outro lado, o olfato merece mais atenção, sua importância na passagem temporal não é tão clara quanto os olhos. Saborear o aroma de alimentos na rua, permite a um cego ter quase certeza de que é hora do almoço, curiosamente à noite não se sente o perfume alimentar, à noite quase nenhum odor é perceptível, salvo algumas flores que abrem sob ausência de luz, como a Dama da Noite. A audição permite determinar o horário de maior movimento nas ruas, seja nas calçadas com os andares pesados de milhares de pessoas, seja com o ressoar de motores e buzinas de motos, carros, caminhões, guindastes.
Finalmente consegui ouvir alguma coisa, não era capaz de presenciar nenhum outro dos cinco sentidos, mas jurava ouvir algo. Era como um rufar de um grande tambor, duas batidas seguidas davam lugar a um curto período de silencio que logo era cortado com mais duas batidas perfeitamente sincronizadas, dando continuidade a este ciclo. Percebi que se tratava do bater do meu coração. Ainda não conseguia me mexer, nem sequer um músculo respeitava os comandos de minha mente, mas só de ouvir o som de meu coração, meu espírito se tranqüilizava ainda mais com a certeza de que estava vivo. As batidas de meu coração deram lugar a outros sons, sons que não vinham de meu corpo ainda inerte. Era algo parecido com o arrastar lento de pernas cansadas, um ruido rastejante de cascalho e pedras maiores; unidos a murmúrios cansados e gritos de pavor e raiva.
A antes inicial paz em que me encontrava se desfez rapidamente; era incrivelmente perturbador ouvir aqueles sons e não poder decifrar quem os proferia, não ser capaz de fugir para um local mais calmo. Foi quando finalmente meus outros sentidos resolveram tomar-me conta. Repentinamente meus olhos se abriram e meu corpo se levantou, como se alguem o tivesse impulsionado de baixo para cima com força apenas suficiente para me elevar. Surpreendentemente fiquei de pé, sem perda alguma de equilíbrio. Meus olhos se deparavam com local diferente do ultimo visto; de nada aquele lugar se parecia com a Rua Vergueiro.
Estava no interior de uma gruta, ao que parecia, uma vez que estalactites se projetavam do teto de pedra. Havia pouca luz com que meus olhos pudessem se deleitar, apenas o suficiente para notar uma fina estrada de cascalho, em meio ao chão de pedra maciça da gruta; de treze a treze metros duas tochas, uma de cada lado da trilha, voltavam a trazer luz ao recinto. Em meio ao caminho de cascalho, centenas de pessoas caminhavam lentamente, em duas filas. Algumas queriam se apressar mas eram impedidas pelos passos lentos dos antecessores, outros só andavam por inércia, empurrados pelos que vinham logo atrás. Os ânimos eram diversos; muitos se lamentavam, murmurando em diversas línguas sons quase indecifráveis, raramente conseguia entender alguem falando em português ou em inglês, pude jurar ouvir uma voz feminina a bradar algo em italiano que meus estudos não foram o suficiente para entender. Havia outros que gritavam em fúria ou pânico, sem no entanto parar de caminhar.
Me via parado ao lado esquerdo daquela procissão, ninguém parava de caminhar, todos preocupados com o trajeto. Minha cabeça doía agora, os formigamentos infelizmente deram lugar à pontadas periódicas de dor na parte de trás de minha cabeça, sentia agora frio, não estava devidamente agasalhado, apenas usava uma camiseta roxa com os Beatles estampados em preto, uma calça jeans escura e minhas botas de caminhada; era necessário esfregar minhas mãos pelos braços e me encolher um pouco para me aquecer. Como vim parar ali? Não fazia muito sentido, estava atravessando a rua com meus amigos, quando de repente me encontrava inerte em meio à total escuridão, para então finalmente abrir os olhos e ser preenchido com preocupação e receio.
Um ímpeto mandava-me seguir a todos os estranhos transeuntes, enquanto parte de mim insistia em ficar parado. Foi quando por fim, ignorando meus receios e talvez até mesmo a boa razão, dei o primeiro passo em direção a trilha. Tão logo firmei meus pés no cascalho, fui arrastado pela massa infindável de pessoas, como uma grande correnteza humana. Não havia como parar agora, não seria possível descobrir o que aguardava no fim da estrada; todos poderiam andar em direção a um grande precipício e só se dariam conta disto quando fosse tarde demais. O que mais incomodava era que apesar do murmúrio lamentoso de muitos e uivos coléricos de outros, a sensação de silencio ainda era presente. Não sentia vontade de falar, chorar ou gritar, afinal, nem sabia onde estava e para onde iria, talvez se soubesse de antemão o paradeiro daquela trilha, começaria a lamentar também. Um senhor de idade acompanhava meus passos com esforço, tossindo a cada passo, por mais lentos que estes fossem. Me contive por alguns instantes em perguntar onde estava, talvez ele fosse capaz de me responder, talvez alguem por perto que ouvisse minha pergunta responderia, me diria a razão de tanto remorso e ira por parte de alguns e silencio mortal por parte dos demais.
O velho se movia com certa dificuldade, cada passo que dava parecia requerer esforço sobrehumano pois sempre que mexia suas pernas, fazia uma careta de dor que lhe distorcia o queixo; notei depois de certo tempo de caminhada que ele tossia a cada dez ou quinze passos, tendo mais uma vez a careta característica em seu rosto. Uma barba rala e acinzentada lhe cobria o rosto, os olhos verdes que já desfrutaram do brilho jovial, agora se tornavam opacos e com pouca vivacidade; o cabelo era curto, acizentado como a barba. Trajava uma camisa branca, com todos os botões fechados, uma calça social cinza e um paletó de mesma cor que as calças. Os mocassins, gastos e sem brilho como seus olhos, se arrastavam pelo cascalho sem muita mais força.
A cada pequeno intervalo entre suas tosses, minha vontade de perguntar-lhe para onde iriamos aumentava. Algo naquele senhor me prendia a atenção, talvez uma falsa sensação de confiança, devido ao seu aspecto indefeso e frágil; parecia a figura de um avô carinhoso, que apesar da fragilidade pulmonar e locomotora, não se deixava abater e sempre trazia balas para os netinhos. Por fim, minha curiosidade, apreensão e agonia venceram a prudencia e não mais me contive:
-Com licença, sabe para onde estão indo todos?
Aquele senhor me olhava enquanto caminhava lentamente, segurando para não tossir novamente, ato vão que só piorava a tosse seguinte. Coçou a cabeça por um instante e fez sinal de que não compreendera uma palavra sequer. De fato foi muita pretensão a minha supor que ele falaria português; poderia ter encarado sua ignorância na língua portuguesa como uma forma de parar de falar e conter minha aflição e ansiosidade agonizante, contudo, repeti a frase em inglês, numa segunda e ultima tentativa. O velho desta vez fez sinal de que entendera minha pergunta; me olhava com certa pena nos olhos opacos, uma expressão de piedade e consolação:
-Não sei, meu jovem. Caminho desde que acordei, com dificuldade nas pernas e nos pulmões. Já perdi a conta das horas, se não dias em que vagueio, empurrado por este mar de gente que só tem a se lamentar...- por um momento o senhor olhava para cima, em busca de um pouco mais de ar para lhe dar folego na nova serie de tosses secas-...me chamo Phillip Connor, como se chama, jovem?
Era de fato angustiante ver aquele homem naquele estado, a cada tosse que dava, parecia que um pedaço do pulmão lhe saltaria para fora. Duvidava de que ele poderia agüentar mais tempo de caminhada, com aquelas pernas que chegavam por vezes a tremer a cada passo em falso no terreno pedregoso. Minha consciência mandava ajudar-lhe, não demoraria para que, naquele estado, ele caísse como um boneco de pano e fosse pisoteado pela maré incessante de pessoas. Ponho seu braço em meu ombro, servindo como apoio, nossa velocidade só não diminuía porque eramos constantemente empurrados pelos demais, logo atrás:
-Me chamo Victor Tedeschi. Sou de São Paulo, Brasil e o senhor?
-Sou de Ottawa, no Canadá. Por favor, não precisa me chamar de senhor.
Como diversas pessoas, de países diferentes, poderiam se reunir em um só lugar em uma infinita caminhada? Não fazia sentido! Já mal conseguia ouvir minha própria respiração e, honestamente, jurava não ser mais capaz de ouvir o meu rufar cardíaco; minha cabeça que antes formigava e algumas vezes chegava a doer, agora sofria latejos intensos de dor. Ainda bem que estava servindo de apoio ao senhor Cornnor, se não fosse o apoio mutuo, teria me atirado no chão, a segurar a cabeça e ficar na posição fecal, tamanha era a dor. Era como se minha cabeça fosse arremessada na parede diversas vezes, e logo depois aberta com um machado. A cada passo que dava, minha cabeça parecia doer mais, Phillip parecia tossir com maior ferocidade, a mulher na nossa frente se contorcia mais de dor ao segurar o ventre e as outras tantas pessoas gemiam e gritavam com todo o poder de seus pulmões.
Avistava, com o forçar dos olhos devida a má iluminação, um declive onde todos sumiam de minha vista, provavelmente se tratava de uma ladeira mais a diante. Logo foi a vez de Cornnor e a minha de ficar no topo do declive. A baixo a estrada continuava tortuosa, não consegui ver muito, a massa de gente não permitia o descanso,só o que pude ver era um clarão alaranjado, tendendo para o negro e muita fumaça. O que nos aguardaria mais a baixo? Infelizmente minha pergunta foi respondida, foi a partir daquele momento que realmente comecei a sentir medo.
De fato era um alto declive, sua descida era desgastante, era necessário fazer muita força nos joelhos ao flexiona-los para não cair morro abaixo e ser pisoteado por milhares de pés; força que nem eu e nem Phillip tínhamos. Esperar que um senhor tivesse poder nas juntas era demasiado ridículo e quanto a mim, um rapaz de dezenove anos, era mais do que esperado que ao menos tivesse folego para segurar meu peso naquela inclinação. Contudo, não se tratava apenas de mim, aliava-se a meu modesto peso, mais sete dezenas de quilos com idade avançada e a mais do que tenebrosa dor de cabeça, tao angustiante e dilacerante que manter-me normalmente em pé já era quase impossível. Contava com a ajuda involuntária de milhares que vinham atrás que me impulsionavam poucos metros abaixo, tendo como barragem os milhares a minha frente. Phillip chegava agora a soltar grossos catarros verdes ao chão, isso quando eu não jurava poder ver um pouco de sangue coagulado em meio ao muco pulmonar; andar ficava mais difícil, mais penoso e cansativo. O ar parecia mais carregado, um cheiro pútrido emanava do próprio solo, não havia mais estalactites a poucos metros acima, o teto daquela gruta parecia infinitamente distante. O tom acinzentado e negro dera lugar ao laranja fuliginoso e ao cinza claro, sem dúvida era possível enxergar melhor, mas não sabia ainda dizer de onde vinha qualquer luz.
Após descer por completo o declive, viramos com lentidão duas curvas, uma para a direita e outra para a esquerda; nosso caminho era mantido em segredo a cada curva uma vez que agora a estrada se via em meio a duas paredes enormes de pedra que sempre escondiam a próxima curva. Surpreendentemente a fila parou de andar no final da segunda curva. Pude ver a fonte luminosa do local, centenas de fogueiras enormes a exalar uma fumaça densa, talvez a verdadeira culpada pelo mal cheiro, cada uma despreocupadamente espaçada uma da outra, ao contrario da linearidade das tochas do começo de meu caminho. Forcei bem a minha vista e era capaz de jurar que mais a frente havia alguns píeres, ao menos a distância pareciam-me assim. Contei ao todo cinco, de um lado ao outro; contudo, não conseguia ver nenhum lago devido não só a fumaça que aumentava a medida que a fila voltava a andar em intervalos pequenos de tempo, como a tontura e o mal estar mexiam com minha visão, embaçando-a.
Para meu terror e incompreensão, a medida que avançávamos periodicamente minha mente foi capaz de juntar os cacos de informações dadas a mim desde o início. A vaguidão inicial, a sensação de fluides, o silencio, o sussurro, os gemidos de dezenas de milhares de pessoas, sua caminhada incessante, a gruta em si, minha dor de cabeça, as cenas da Rua Vergueiro e os sons de pneus derrapando no asfalto que vagavam estranhamente pela minha memória, o cheiro pútrido de nada mais nada menos do que enxofre e agora a imagem de treze e não cinco píeres na costa de um grande lago negro me indicavam apenas uma coisa. Estava a caminho de minha perdição eterna. Como e porque estava indo em direção ao Inferno, não sabia, não fazia nem idéia de que estava morto, jurava ter escutado meu coração bater a pouco tempo atrás. A confusão reinava em minha cabeça, me atordoando ainda mais. Phillip, que parecia entender a minha expressão de desconforto e ansiedade, perguntou em sua lingua nativa:
-Está tudo bem, jovem?
Olhei para seus olhos opacos, senti os meus marejando-se, tremulei um pouco antes de conseguir falar, não encontrava palavras para me expressar, minha língua se enrolava nela mesma e meus lábios tremiam antes que conseguisse proferir isto:
-Acho que sei onde estamos, mas não faz sentido, não consigo encontrar razão para estar no local em que penso que nos dirigimos, para tal, precisaríamos estar mortos e pelo menos nem eu e nem você damos sinal disto. Ouvi a pouco tempo, quando acordei, meu coração bater e bem, como um morto poderia tossir e reclamar de dor? Não faz o menor sentido estarmos a caminho do In...
Não tive tempo de terminar a frase, antes que o pudesse, Phillip colocara uma mão em frente a minha boca, seus olhos mesmo sem brilho me transmitiam emoção. Olhei para os lados e pude ver que quem estava próximo escutara minha reflexão e ansiava pela conclusão final:
-Não termine, também tive esta expressão, apesar de fazer para mim tão pouco sentido quanto faz para ti. Imagine o que seria se muitos ouvissem o que pensamos? Já estamos em meio a esta bagunça, não vamos arremessar mais feno a este incêndio – Disse-me Cornnor em voz baixa e rouca, destapando a minha boca.
Não era sensato criar alarde. Não havia para onde correr em caso de confusão causada pelo pânico. Não havia como voltar, a barreira humana era mais forte do que muralhas de aço, as laterais eram cobertas pela pedregosa parede cinza e a frente só o destino. A fila em que estávamos se dividia finalmente em treze; Phillip e eu ficamos na décima fila. Já me era permitido ver com mais exatidão o nosso píer. Era de madeira, sem nenhuma pintura ao que parecia, havia uma pequena casinha e a sua lateral um corredor de tabuas sobre a margem que levava à duas barcas, uma de cada lado, cada uma levava vinte passageiros e em mais um turno de espera, levaria a mim e meu colega de viagem.
Era chegada a hora, eramos um dos últimos a entrar naquela barca de madeira que rangia ao menor toque. Fora talhada na proa a figura de um leão com o rabo em forma de serpente, escrito na lateral da pequena barca, em vermelho, estava QUIMERA. Ao entrar na barca, ninguém mais lamentava ou murmurava uma palavra sequer, só escutava o passar do remo nas aguas negras, proferido pelo barqueiro que se localizava na popa. Um homem incrivelmente magro, de pele branca e expressões cadavéricas, com quase nenhum fio de cabelo na cabeça, era o responsável por remar eternamente de costa a costa daquele lago. Trajava um longo sobretudo negro que estava com os grandes botões pretos abertos, revelando suas costelas protuberantes em meio a seu peito quase albino. Um cinto de couro segurava-lhe calças da mesma cor que as vestes, uma vez que sem este, com certeza a calça não se manteria em sua fina e cadavérica cintura. Por um momento pensei que fosse o lendário Caronte, contudo percebi que seria impossivel; na mitologia grega havia apenas um barqueiro e não vinte e seis como havia ali. Como se este soubesse de meus pensamentos, começou a falar, ao que parecia em português, mas pude perceber que todos ali eram capazes de entende-lo, me fazendo imaginar que cada um o escutava segundo sua língua mãe:
-Por Caronte ma faço passar, mas Caronte longe sou eu de ser. Má aventuradas almas penadas, sou seu barqueiro Minfastes! Guio-os à perdição eterna! Para aqueles que a memória anda falha ou o conhecimento do pós vida anda em mofo, digo que dirigem-se aos portões do local profano, daquele em que todos procuram fugir durante a vida! Estão todos mortos, vale ressaltar! Se sentem dores, não se preocupem, dor é o que não faltará a vocês. Não se exaltem, fugir será em vão, só trará ainda mais sofrimento! Mortos estão, nunca esqueçam disto! Não importa o que pensem ou o que queiram, suas almas já não lhe pertencem mais!
Suas palavras eram frias, mas sabia que Minfastes deveria sentir prazer em proferi-las. Todos na barca se entreolharam e se inquietaram, alguns chegavam a gritar de medo, outros permaneciam quietos como Phillip e eu, guardando para nós a aflição e o medo. Dois chegaram a pular de QUIMERA, só para deleitar ainda mais o nosso barqueiro, que ria secamente, demonstrando repúdio àquelas almas inúteis. Ao pularem nas águas do grande lago, revelaram que em meio a escuridão de suas aguas se escondiam tormentos que nem em meus maiores pesadelos cheguei a imaginar. Pequenas serpentes que não mediam mais que trinta centímetros e que se parecidas com Najas, serpenteavam pela superfície, como se esta fosse meramente um punhado de areia do deserto, tamanha habilidade e perícia com que moviam seus corpos por entre a água; porém não eram cobras comuns, estas possuíam um diferencial de suas primas do plano mortal, tinham braços parecidos com as de um Louva-a-Deus e ao invés de um espinho, como o inseto, possuíam navalhas afiadas que abriam caminho por entre a carne dos dois pobres homens que ousaram se exaltar e fugir, tomados pelo pânico da morte e da caminhada sem volta. Não só abriam-lhes a carne, como também se enfiavam pelas feridas; foi possível ver os contornos serpenteantes por baixo da pele das pobres criaturas que urravam de dor; quase mais sem forças, desgastados pela dor e sofrimento, acabaram por afogar-se:
-Que este testemunho lhes seja valioso, almas podres e nojentas! Não terão mais nada do que sofrimento e lamentações. Que este seja um prelúdio do que serão forçados a passar, em pagamento aos pecados cometidos em vida! Aqueles que pularam, agora sofrem eternamente esta pena, até o Fim dos Tempos serão obrigados a atravessar este lago a nado, sempre a se afogar com mil e uma serpentes infernais envolvendo-lhes a carne! Nunca saberão que julgamento sofreriam nas mãos do Juiz! Vocês têm esta sorte! Estamos a chegar na outra margem e falta ainda que lhes dê as ordens finais. Ao chegarem, continuem em fila, se encontrando com os demais companheiros que partilham de mesmo fim, sigam até os Portões Vermelhos, rumo à Casa do Juízo, onde serão condenados devidamente. É inútil rezar por Deus agora, Ele já não pode mais ouvi-los aqui em baixo!
Senti tremendo frio na espinha, um nó se formava em minha garganta e sentia um peso desconfortável em meus ombros. O que vi era demasiado cruel, digno do Inferno; o que concretizava meus medos. Estava morto e condenado à danação. Dezenove anos de vida e já tão culpado, digno a habitar as profundezas? Não poderia ser, não estava certo! Maldição, ainda há pouco me sentia vivo!
